Madre Petrea

24 08 2008

um dia voltarei a ser dono das imagens que exponho

Eu passava em frente a uma casa onde vivi e senti meu corpo dizer que um dia já estivera à sua sombra. Hoje, porém não seria possível. A casinha de eira e beira dos anos 30 dava lugar às aresta de concreto, grades e cercas elétricas do século novo. Não seria possível porque seu teto fora derrubado para dar lugar a um novo pavimento. E até a vinda deste, seu útero seria profanado pelo sol, e, ainda sob a vil presença deste ao meio-dia, senti frio.

E como se minha epiderme começasse a fazer-se dum cimento espesso, afastei-me vagarosamente daquela visão, das ruínas de minha memória. E o fiz sem que ninguém desse por mim – isto talvez fosse mais um sinal de um homem apagado, desbotado: um mendigo, um mimético elemento da paisagem urbana, Duas vezes expulso do ventre da mãe.

Quem estava comigo: caminhos – Raul Seixas





Éimpossível, a solidão.

3 06 2008

Esta noite não fico recluso, pois mesmo os homens solitários, certas noites se sentem sozinhos. E consideram essencial a tolice de fazer-se entender por outro, um outro qualquer mesmo. Coisa que em toda vã, talvez os levem a crer que não se encontram reclusos à crua e humana solidão.

Quando a lua surge, caminho na sua trilha de luz e penumbra rumo ao encontro de qualquer um que me atenda o telefone. E antes que o destino se faça, consterno-me no rápido e banal encontro de passagem com um conhecido distante. Nome. Nem se quer me lembra o nome e eu que lhe descreveria toda a vida, mas os olhos que me cruzam, os pés que param seguidos de cumprimentos, consternam-me.

Certamente existo.

Mas eu precisava mais que de um pretexto, de algo mais para haver entendimento. E isto, isto é impossível. E somente com isto, posso voltar ao meu silêncio – sem trilha de lua e penumbra.

Ligo para alguém e o pulsar quase hipnótico do celular me arremete à dúvida da necessidade de olhos outros em confronto aos meus de origem solitária. A contradição não só reforça como é fundamental. É no contra-espelho da diferença onde se nasce e se renasce, porém se “é” e se morre sozinho. Nesta noite de luz-penumbra, ora em trilha, ora encruzilhada, a solidão é impossível, a solidão é necessária.

O telefone chama, como eu chamo a qualquer um. E falaria, e escreveria aos mil contatos destas ligações, sem que me entendessem. Afinal, as palavras estão sempre atrasadas à evolução do corpo que as produz. As palavras são um rastro à penumbra dos sentidos como a lua que, mesmo com os postes todos acessos, não cessa a escuridão da trilha.

Mantenho o pulso periódico do celular ao ouvido, mas torço que, quem quer que seja, não me atenda. A solidão é impossível bem como o entendimento, mas num ascendente silêncio, o importante é continuar caminhando.