Madre Petrea

24 08 2008

um dia voltarei a ser dono das imagens que exponho

Eu passava em frente a uma casa onde vivi e senti meu corpo dizer que um dia já estivera à sua sombra. Hoje, porém não seria possível. A casinha de eira e beira dos anos 30 dava lugar às aresta de concreto, grades e cercas elétricas do século novo. Não seria possível porque seu teto fora derrubado para dar lugar a um novo pavimento. E até a vinda deste, seu útero seria profanado pelo sol, e, ainda sob a vil presença deste ao meio-dia, senti frio.

E como se minha epiderme começasse a fazer-se dum cimento espesso, afastei-me vagarosamente daquela visão, das ruínas de minha memória. E o fiz sem que ninguém desse por mim – isto talvez fosse mais um sinal de um homem apagado, desbotado: um mendigo, um mimético elemento da paisagem urbana, Duas vezes expulso do ventre da mãe.

Quem estava comigo: caminhos – Raul Seixas