Estrangeiro

19 06 2009

image010

Hoje à noite uma forte tristeza me abateu. Eu desejei desejar e percorrer a highway media-classe-feliz – uma longa, íngreme, alucinógena e alegremente previsível subida a um planalto muito abaixo das nuvens que envolvem o topo da montanha. O planalto é vazio e  seus inquilinos e candidatos nem sabem, nem o querem saber. Pescoços tortos, cabeças pra cima e as bocas abertas esperando que, das nuvens, alguém lhes cuspa algo que lhes acerte a boca.

Esta noite vi um amigo subindo a highway e ele me parecia tão feliz. Alguns têm vocação.

E o invejei. Não por sua aptidão ao sucesso, mas por sua capacidade de passar feliz pela vida.

Seja qual vida for.

A tristeza que se apodera de mim é parte inveja de sua estrada reta, é parte minha indisposição para ela que tão natural a mim haveria de ser.

Como seria maravilhoso! Gravata verde ou azul querida?! Coca-cola ou pepsi?!

E que melhor a felicidade dele, meu amigo, que é a de não saber que o é ou não o é.

Esta noite reparei num outro, já com pescoço torto, subindo a highway, torto de Beijar o asfalto. Alguns têm estupefação.

Ainda bem que reparei neste,  eu jamais quereria invejar meu amigo, e assim posso ainda me sentir engraçado com a ironia.

Mas passa,  toda graça me passa porque sou capaz de revisitá-la -  já sem sorriso. Porque sou todo torto, desgovernado de olhar pra todo lado. Consigo também desejar um fado que não desejo pra mim. Ora porque não sei que desejo mora em mim, Ora porque meu desejo não mora aqui.

Ora estrangeiro de mim, Ora estrangeiro do mundo. Todo errado.

E já lhe digo isso sem estupefação.

Sou poeta do tédio.

Além do comum, sou o possível da ladeira ao planalto.

Ora, quê mais há para se dizer quando até o estrangeiro é comum?


Ações

Informações

Uma resposta

19 06 2009
Jamie

De fato, às vezes dá mesmo vontade ser um funcionário público engravatado, uma dona de casa gorda de bobs na cabeça. A vida dessas pessoas é tão programada que chega a ser invejável. Que preoucupação se pode ter quando o “nossu sinhô jésuis” já pensou em tudo, no que deve e no que não deve ser feito.

Prefiro-lhe poeta do tédio, prefiro-lhe como o amigo que o engravatado diz, perdeu-se.

De qualquer forma, eu jamais poderia lhe ajudar com as gravatas.

Deixe um comentário