um dia voltarei a ser dono das imagens que exponho
Eu passava em frente a uma casa onde vivi e senti meu corpo dizer que um dia já estivera à sua sombra. Hoje, porém não seria possível. A casinha de eira e beira dos anos 30 dava lugar às aresta de concreto, grades e cercas elétricas do século novo. Não seria possível porque seu teto fora derrubado para dar lugar a um novo pavimento. E até a vinda deste, seu útero seria profanado pelo sol, e, ainda sob a vil presença deste ao meio-dia, senti frio.
E como se minha epiderme começasse a fazer-se dum cimento espesso, afastei-me vagarosamente daquela visão, das ruínas de minha memória. E o fiz sem que ninguém desse por mim – isto talvez fosse mais um sinal de um homem apagado, desbotado: um mendigo, um mimético elemento da paisagem urbana, Duas vezes expulso do ventre da mãe.
Quem estava comigo: caminhos – Raul Seixas

“E como se minha epiderme começasse a fazer-se dum cimento espesso, afastei-me vagarosamente daquela visão, das ruínas de minha memória.”
Vou buscar memorizar esta frase para quando passar pelas casas que morei.Muito bonita.
Tenho esta horrivel sensação quando passo pela casa que morei na Barão de Aracati. Ou melhor, pelo prédio que ocupa seu terreno. A casa foi derrubada e com ela foram os riscos que tinha feito nas paredes e o espírito infantil de duas crianças correndo e crescendo.
Impressão parecida tenho também quando vou à serra, com a diferença que tudo lá continua igual, meu receio é até quando.
Os lugares, quando somos pequenos, parecem maiores, mais belos. Quem faz os lugares que moramos é mais nossa imaginação que os lugares em si.
“Os lugares, quando somos pequenos, parecem maiores, mais belos”. Com certeza, J.
Camilo, meu ser querido… a casa onde morei tinha uma palmeira que cresceu comigo. Tinha grama verdinha e flores de várias cores no jardim, na frente. O novo dono cimentou tudo. Foi-se o verde. Veio o cinza. Aquele cinza feio de resto de obra no asfalto.
As janelas de madeira, estilo venezianas, ganharam grades enormes, pretas, ameaçadoras. Quase como aqueles negócios que se colocam nos cães (focinheiras)?
Sua casa era dos anos 30? Devia ser de arquitetura simples, singela, mas bem característica. Essa cidade não respeita os mais velhos. Não mesmo. Não quer ter História, nem histórias.
Os riscos que a J fez nas paredes da casa dela me lembram os papéis que enrolei cuidadosamente e espalhei dentro dos tijolos furados que foram usados na reforma lá de casa. Com a parede ainda sendo feita, lá ia eu com um bilhetinho : “Nessa casa morou uma família muito, muito, muito feliz”. “Se você encontrar esse papel um dia, saiba que ele foi escrito em 1996 e o mundo naõ deve ter mudado muito até o momento em que vc estiver lendo isso”.
p.s.: a foto tá tristemente urbana.
vejo uma revelação: a Plita morava na colina dos teletubies ahuahuahua brincando, brincando…
Cara, a casa a que me refiro e que morei era a tipica moradia do centro da cidade do tempo dos nossos avós, calaro, estreitada pela especulação imobiliária dos últimos vinte anos que desdobrou 4 casas de cada casarão dalí. Os seus traços são semelhantes ao que hoje tentam restaurar no dragão do mar, apesar dela não ter pavimento superior.
Pois é, o novo dono resolveu “modenizá-la”.
Nota: Ele tem a idade dos nossos avós!”
Moral da História: Plita-Dipsy está certa “Essa cidade não respeita os mais velhos. Não mesmo. Não quer ter História” complemento apenas dizendo que nossos velhos desejam se apagar…