Quem me responde que não a morte?

30 07 2008

O texto que se segue foi escrito em 2007 por conta da morte de um amigo em situação trágica de um atropelamento criminoso. Apesar de ter escrito no período, não ousei publicar apesar de ofertas a mim feitas, poi acreditava ser algo mais intimo à mim e à morte que à minha relação tão superficial com este amigo.

Ontem a noite morrera um amigo meu. Não que realmente meu amigo o fosse, mas o conheci a vida toda. Perdão, engano-me, ele morrera jovem e destes poucos anos, que sei eu mais de sua vida que da do jornaleiro que me saúda todas as manhãs? Estudávamos juntos, morávamos perto e nenhum sentimento fraterno nos aproximara de fato, mas a verdade mórbida me chegou aos ouvidos como uma sentença irrevogável para a minha distância: te afastastes de vez.

A morte me trouxe, ao fim, ao fim, a saudade daquele que passava despercebido há poucos instantes atrás. Por isso o chamo amigo.

A triste constatação, o finito, seguida de um afirmar feliz, o amigo, desvendaram o que se passa em mim. Eu percebi, todos os homens são ligados por uma tenebrosa fraternidade. Não existe distância, não há afastamento real, todos os peitos se apertam ao se encontrarem com o último intermediário entre o “eu” e o “outro”, a morte, a morte. E todos conhecem e se identificam com aquele quem morre, todos lamentam, por si ou pelo outro ou pelos dois. Esta é a aliança dos homens com seu fim, uma fraternidade, paradoxalmente, eterna.

Não me consolo com o fim. E se sinto falta de meu amigo agora, não o sentindo a tão pouco atrás, é porque um “vir-a-ser”, um amigo que teria, é mais concreto e feliz que qualquer “feito” macabro. De fato, a cada fim, a cada morte, a cada homem, a cada jarro de planta, a cada animal, a cada um que se vai ou se quebra sem que o tivéssemos tido, que o quiséssemos ter, nos faz querer tê-los ou, quando pouco, desejar querer: o vir-a-ser está no domínio da vida e sem aquele, esta não se faria.

As religiões, não entendem nada da morte. Que é o paraíso se não um vir-a-ser? Vir-a-ser, aliás, tão vivo que não poderíamos associar seu caminho àquela quem preside nossa funesta irmandade, à morte. Não! Todos os religiosos choram pelo fim de seus irmãos, posto que é um fim, e seus mitos saltam-no para uma outra fase, um outro vir-a-ser, mas não os trazem de volta. Um fim não tem depois. Aliás, o que a carta da morte, no tarô, o que esta carta e todas as outras, o que todos os arquétipos de Jung, o que todos os livros sagrados, o que todos eles sabem da morte do homem? Qual destes conheceu nossos anseios, infundados ou não, i-na-ca-ba-dos? Qual deles terminará o que estaremos a fazer quando ela nos levar?

Eis um anseio a mais que não sei se ela me deixará superar, eu não tenho respostas. Não me consolo com o fim porque de nada elas, minhas respostas, me valerão, mas ainda assim eu pergunto. Não me consolo com o fim porque não tenho mais a chance de perguntar a meu amigo, porque não tenho mais a chance de fazê-lo amigo.

Não me consolo com o fim posto que é fim e minha humanidade é eterna.

Meu amigo, quantas das tuas perguntas tereis respondido em tão pouco tempo? Quantas dúvidas tu deixastes para os vivos?

Quem estava comigo aqui: canto para a minha morte – Raul Seixas


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5 respostas

30 07 2008
Jamie Barteldes

Não aprecio o assunto, considero a morte um assunto meio intocável, meio sagrado demais, morro de medo dela, de suas consequências, de sua inevitabilidade.

“E todos conhecem e se identificam com aquele quem morre, todos lamentam, por si ou pelo outro ou pelos dois. Esta é a aliança dos homens com seu fim, uma fraternidade, paradoxalmente, eterna.”

É verdade, é o que a todos aguarda, um de uma pedrada, outra de um acidente trágico, outro simplesmente acordará e de um mal súbito fenecerá. Há um acordo subentendido que ilustra o “meus pêsames”. Aliás, atualmente as pessoas dizem “meus sentimentos” ou “desculpa”. E, este último, me parece o mais legítimo de todos. Desculpe-me por tocar em um assunto assim tão mórbido, assim tão intocado.

Bonito texto, assunto sobre o qual não falo muito, mas pra vc eu abro uma exceção;D

30 07 2008
Plita

O começo do texto parece até vc falando. Tua escrita flui naturalmente e toca a tristeza do tema com a leveza da sinceridade que a cada linha parece derramada como um choro. Mas não são lágrimas. Parecem não poder ser outra coisa senão sinceridade diante de um assunto tão… intocado, como disse a Jamie.

Não consegui identificar resignação total nem desespero. O que você pensa sobre a morte também me parece um vir-a-ser. Se me perguntarem qual a opinião de Felipe Camilo sobre a morte não saberia dizer. No fundo, entenderia uma parte sem, contudo, saber explicá-la a alguém.

Esse texto me soa como um exercício de humanidade. “Ó, o compadecido! O que ama seus semelhantes, mesmo desconhecidos”! Não, não… Humanidade não é só isso. É se descobrir meio cético, meio cínico. Nâo falar com alguém a vida inteira e depois de sua morte perceber que ele faz falta, e que as coisas que ele poderia fazer um dia farão falta. É se identificar com o outro pelo estreito fio da morte, a única coisa igual pra todos. O destino inevitável, temido, incompreendido, intocável e eterno.

31 07 2008
camilokardozo

“Vir-a-ser”! sim, eu também tenho os meus mitos imprecisos sobre e para a morte. A Morte, porém, reside aqui em um fato e não na amplitude do meu pequeno mundo. Mas eu acredito na persistencia de ser inclusive na poeira que eu bati no carpete, dando relevancia a este ato vulgar e vulgarizando grandes lendas imortais cristã (por exemplo). eu estive e tendo estado sempre permanecerei de diversas formas. Algumas pessoas consideram isso bobagem se não forem lembradas em livros e estatuas, mas acredito que meu nome não precisa ser estampado em camisetas ou rubricados nos graos de poeira que mexi para que eu esteja certo de minha permanencia.

29 12 2008
Paloma

De qualquer forma, bonito.
Por que não, né!?
Talvez não o assunto mas a forma com que foi escrito.

11 02 2009
Netu

“Morte, morte, morte q talvez seja o segredo dessa vida…”

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