Esta noite não fico recluso, pois mesmo os homens solitários, certas noites se sentem sozinhos. E consideram essencial a tolice de fazer-se entender por outro, um outro qualquer mesmo. Coisa que em toda vã, talvez os levem a crer que não se encontram reclusos à crua e humana solidão.
Quando a lua surge, caminho na sua trilha de luz e penumbra rumo ao encontro de qualquer um que me atenda o telefone. E antes que o destino se faça, consterno-me no rápido e banal encontro de passagem com um conhecido distante. Nome. Nem se quer me lembra o nome e eu que lhe descreveria toda a vida, mas os olhos que me cruzam, os pés que param seguidos de cumprimentos, consternam-me.
Certamente existo.
Mas eu precisava mais que de um pretexto, de algo mais para haver entendimento. E isto, isto é impossível. E somente com isto, posso voltar ao meu silêncio – sem trilha de lua e penumbra.
Ligo para alguém e o pulsar quase hipnótico do celular me arremete à dúvida da necessidade de olhos outros em confronto aos meus de origem solitária. A contradição não só reforça como é fundamental. É no contra-espelho da diferença onde se nasce e se renasce, porém se “é” e se morre sozinho. Nesta noite de luz-penumbra, ora em trilha, ora encruzilhada, a solidão é impossível, a solidão é necessária.
O telefone chama, como eu chamo a qualquer um. E falaria, e escreveria aos mil contatos destas ligações, sem que me entendessem. Afinal, as palavras estão sempre atrasadas à evolução do corpo que as produz. As palavras são um rastro à penumbra dos sentidos como a lua que, mesmo com os postes todos acessos, não cessa a escuridão da trilha.
Mantenho o pulso periódico do celular ao ouvido, mas torço que, quem quer que seja, não me atenda. A solidão é impossível bem como o entendimento, mas num ascendente silêncio, o importante é continuar caminhando.


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