Hannah tinha os cabelos despenteados. E isso, Pedro só pôde notar quando enfim ela chegou após uma longa, incomum e inesperada espera.
Pedro já havia organizado e reorganizado a mesa no bar onde a esperava. Pedro já observou, ouviu e fuçou a todos ao redor. O mundo já lhe havia confortado com o cálido abraço de seus padrões. Apenas algo não havia ali: A presença perfeita de Hannah – até que em fim ela chegou.
Hannah tinha os cabelos despenteados. E Pedro, supôs que haveria uma lógica complexa que explicaria tanto suas mechas aparentemente caóticas quanto o atraso.
“Ora vamos.” Pensava ele. “talvez o equilíbrio deste ambiente dependa de seu penteado”. Ela aproximava-se. “Mas como um pente agiu em tamanha balburdia?!”. Mais oito passos os separavam. Não havia ninguém mais ali sentado além dele, ela não se enganaria. “Meu deus! Vou oferecer-lhe um pente. Não, não, não, melhor não. Eu irei entendê-la! Tudo nela deve fazer sentido!” seis passos e nada mais. “O Atraso certamente fora causado por um padrão muito difícil de desvendar entre o vento e as margaridas lá fora. Sim, sim eram difíceis mesmo.” Quatro passos. “Não, não há sentido nisso. Ou será que…” Há três passos e ela pára.
“Ô amigo! Tu não teriax um ixqueiro, teriax?!” Fala ela num sotaque meio português, meio holandês, para o ansioso careca que está à sua frente, que junto de seu longo nariz até agora chamamos por Pedro.
Desconcertado ele a olha dos pés à cabeça, os lábios tremem. Era ela, mas nele, Hannah não via Pedro. Ele olha para a placa que diz PROÍBIDO FUMAR. Ela acompanha seus olhos.
“Mas é claro, desculpe! Não queria incomodar-te.” diz ela sorrindo na esportiva e vira as costas retirando-se. Ele balbucia “H-Ha-Hannah?!” e nada mais lhe sai. “Como você sabe meu nome?!” Surpreendida, vira. Pedro retoma o pulso “Acho que sou a razão de estarmos aqui e…” “Porca Miséria! Meu amigo Pedro! Dá cá um abraço!” Ele levanta-se enquanto ela avança-lhe com os braços estendidos. Ela conclui os três passos restantes, ele recebe o abraço buscando evitar os cabelos dela como se sua pureza, sua perfeição original, fosse corrompida pela simples menção de caos à sua frente.
Após algumas formalidades, Pedro tenta ser o mais polido possível ao lembrá-la, “Hannah”, “Oi”, “O SEU CABELO ESTÁ COMPLETAMENTE ASSANHADO”. “Ah sim! Foi o vento ourax!” diz isso e sorri.
O vento.
Agora um pequeno amontoado de sentidos rolava mente abaixo desenrolado-se numa grande trama. “O vento, o vento! Sim, ela escolheu o lugar. Sim, ela escolheu a hora. Aqui haviam margaridas, e o vento as agitam à cada 4 minutos e 47 segundos, espalhando pelo bar seu aroma 38 segundos depois e dispersando-se em 12. O que quer dizer que o bar fica completamente sem o cheiro à cada 4 minutos e 9 segundos. Ela chegou junto de uma lufada de vento e entre o diálogo e o abraço gastamos 38 segundos e entre o abraço e o recuo natural de um passo, levamos mais doze segundos. Assim, Quando ela me abraços o cheiro das margaridas me atingiu e quando enfim, afastamo-nos, o cheiro se foi – Como se não fosse o vento ou o lugar, mas sua própria pele. Miserável! Aposto como o cabelo reserva sim alguma lógica! Definitivamente, há um padrão ali e eu vou encontrá-lo”.
“E aírix, apreciando o lugar?” disse a moça. Ele, porém, entendeu “Gostou da minha jogada?”. Ele quase podia ver naqueles grandes olhos castanhos um quê de desafio.
O telefone dela toca. Um trecho 5ª sinfonia de Beethoven, quatro notas. Ela deixa repetir-se 5 vezes, nota Pedro. Ele profere algumas palavras num dialeto estranho, com um tom nervoso crescente. Desliga.
“Deus meus, Pedro! Tenho de ir urgentemente! Ligo-te depois! Desculpa!” “Mas o que houve?” “Não dá tempo de…Táxi! Táxi!” Ela entra num carro de placa EVE 5445. Eram cinco da tarde!
Só restou a Pedro gritar: “Adorei as Margaridas!” e ouvir “Que margaridas?”
Seus olhos quase saltaram das orbitas ao ouvir a respostar. “Então ela quer jogar…pois bem, eu prepararei o próximo encontro…”
Que telefonema terá sido este? Será Hannah Eve normal ou obsessiva? Que espécie de encontro Pedro estará tramando?
(respostas às quintas, sempre às quintas…)
Quem estava comigo aqui: arials (system of a down)
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