Estrangeiro

19 06 2009

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Hoje à noite uma forte tristeza me abateu. Eu desejei desejar e percorrer a highway media-classe-feliz – uma longa, íngreme, alucinógena e alegremente previsível subida a um planalto muito abaixo das nuvens que envolvem o topo da montanha. O planalto é vazio e  seus inquilinos e candidatos nem sabem, nem o querem saber. Pescoços tortos, cabeças pra cima e as bocas abertas esperando que, das nuvens, alguém lhes cuspa algo que lhes acerte a boca.

Esta noite vi um amigo subindo a highway e ele me parecia tão feliz. Alguns têm vocação.

E o invejei. Não por sua aptidão ao sucesso, mas por sua capacidade de passar feliz pela vida.

Seja qual vida for.

A tristeza que se apodera de mim é parte inveja de sua estrada reta, é parte minha indisposição para ela que tão natural a mim haveria de ser.

Como seria maravilhoso! Gravata verde ou azul querida?! Coca-cola ou pepsi?!

E que melhor a felicidade dele, meu amigo, que é a de não saber que o é ou não o é.

Esta noite reparei num outro, já com pescoço torto, subindo a highway, torto de Beijar o asfalto. Alguns têm estupefação.

Ainda bem que reparei neste,  eu jamais quereria invejar meu amigo, e assim posso ainda me sentir engraçado com a ironia.

Mas passa,  toda graça me passa porque sou capaz de revisitá-la -  já sem sorriso. Porque sou todo torto, desgovernado de olhar pra todo lado. Consigo também desejar um fado que não desejo pra mim. Ora porque não sei que desejo mora em mim, Ora porque meu desejo não mora aqui.

Ora estrangeiro de mim, Ora estrangeiro do mundo. Todo errado.

E já lhe digo isso sem estupefação.

Sou poeta do tédio.

Além do comum, sou o possível da ladeira ao planalto.

Ora, quê mais há para se dizer quando até o estrangeiro é comum?





Madre Petrea

24 08 2008

um dia voltarei a ser dono das imagens que exponho

Eu passava em frente a uma casa onde vivi e senti meu corpo dizer que um dia já estivera à sua sombra. Hoje, porém não seria possível. A casinha de eira e beira dos anos 30 dava lugar às aresta de concreto, grades e cercas elétricas do século novo. Não seria possível porque seu teto fora derrubado para dar lugar a um novo pavimento. E até a vinda deste, seu útero seria profanado pelo sol, e, ainda sob a vil presença deste ao meio-dia, senti frio.

E como se minha epiderme começasse a fazer-se dum cimento espesso, afastei-me vagarosamente daquela visão, das ruínas de minha memória. E o fiz sem que ninguém desse por mim – isto talvez fosse mais um sinal de um homem apagado, desbotado: um mendigo, um mimético elemento da paisagem urbana, Duas vezes expulso do ventre da mãe.

Quem estava comigo: caminhos – Raul Seixas





Quem me responde que não a morte?

30 07 2008

O texto que se segue foi escrito em 2007 por conta da morte de um amigo em situação trágica de um atropelamento criminoso. Apesar de ter escrito no período, não ousei publicar apesar de ofertas a mim feitas, poi acreditava ser algo mais intimo à mim e à morte que à minha relação tão superficial com este amigo.

Ontem a noite morrera um amigo meu. Não que realmente meu amigo o fosse, mas o conheci a vida toda. Perdão, engano-me, ele morrera jovem e destes poucos anos, que sei eu mais de sua vida que da do jornaleiro que me saúda todas as manhãs? Estudávamos juntos, morávamos perto e nenhum sentimento fraterno nos aproximara de fato, mas a verdade mórbida me chegou aos ouvidos como uma sentença irrevogável para a minha distância: te afastastes de vez.

A morte me trouxe, ao fim, ao fim, a saudade daquele que passava despercebido há poucos instantes atrás. Por isso o chamo amigo.

A triste constatação, o finito, seguida de um afirmar feliz, o amigo, desvendaram o que se passa em mim. Eu percebi, todos os homens são ligados por uma tenebrosa fraternidade. Não existe distância, não há afastamento real, todos os peitos se apertam ao se encontrarem com o último intermediário entre o “eu” e o “outro”, a morte, a morte. E todos conhecem e se identificam com aquele quem morre, todos lamentam, por si ou pelo outro ou pelos dois. Esta é a aliança dos homens com seu fim, uma fraternidade, paradoxalmente, eterna.

Não me consolo com o fim. E se sinto falta de meu amigo agora, não o sentindo a tão pouco atrás, é porque um “vir-a-ser”, um amigo que teria, é mais concreto e feliz que qualquer “feito” macabro. De fato, a cada fim, a cada morte, a cada homem, a cada jarro de planta, a cada animal, a cada um que se vai ou se quebra sem que o tivéssemos tido, que o quiséssemos ter, nos faz querer tê-los ou, quando pouco, desejar querer: o vir-a-ser está no domínio da vida e sem aquele, esta não se faria.

As religiões, não entendem nada da morte. Que é o paraíso se não um vir-a-ser? Vir-a-ser, aliás, tão vivo que não poderíamos associar seu caminho àquela quem preside nossa funesta irmandade, à morte. Não! Todos os religiosos choram pelo fim de seus irmãos, posto que é um fim, e seus mitos saltam-no para uma outra fase, um outro vir-a-ser, mas não os trazem de volta. Um fim não tem depois. Aliás, o que a carta da morte, no tarô, o que esta carta e todas as outras, o que todos os arquétipos de Jung, o que todos os livros sagrados, o que todos eles sabem da morte do homem? Qual destes conheceu nossos anseios, infundados ou não, i-na-ca-ba-dos? Qual deles terminará o que estaremos a fazer quando ela nos levar?

Eis um anseio a mais que não sei se ela me deixará superar, eu não tenho respostas. Não me consolo com o fim porque de nada elas, minhas respostas, me valerão, mas ainda assim eu pergunto. Não me consolo com o fim porque não tenho mais a chance de perguntar a meu amigo, porque não tenho mais a chance de fazê-lo amigo.

Não me consolo com o fim posto que é fim e minha humanidade é eterna.

Meu amigo, quantas das tuas perguntas tereis respondido em tão pouco tempo? Quantas dúvidas tu deixastes para os vivos?

Quem estava comigo aqui: canto para a minha morte – Raul Seixas





Estado

11 07 2008

eu não sei mais ser.
quem eu era não existe,
pois eu só existo, sem jamais ter sido.
O tempo é um risco.
E eu “seria” tolo de afixar-me nele.

E longe deste precipício,

hoje estou forte e volátil,

como um rio em curso cego ou a face esperada de um dado.

Estou mutante,
até amanhã, enquanto o tempo não houver mudado.





Obsessão – Parte II (Estudo de Novela de Folhetim)

21 06 2008

Hannah tinha os cabelos despenteados. E isso, Pedro só pôde notar quando enfim ela chegou após uma longa, incomum e inesperada espera.

Pedro já havia organizado e reorganizado a mesa no bar onde a esperava. Pedro já observou, ouviu e fuçou a todos ao redor. O mundo já lhe havia confortado com o cálido abraço de seus padrões. Apenas algo não havia ali: A presença perfeita de Hannah – até que em fim ela chegou.

Hannah tinha os cabelos despenteados. E Pedro, supôs que haveria uma lógica complexa que explicaria tanto suas mechas aparentemente caóticas quanto o atraso.

“Ora vamos.” Pensava ele. “talvez o equilíbrio deste ambiente dependa de seu penteado”. Ela aproximava-se. “Mas como um pente agiu em tamanha balburdia?!”. Mais oito passos os separavam. Não havia ninguém mais ali sentado além dele, ela não se enganaria. “Meu deus! Vou oferecer-lhe um pente. Não, não, não, melhor não. Eu irei entendê-la! Tudo nela deve fazer sentido!” seis passos e nada mais. “O Atraso certamente fora causado por um padrão muito difícil de desvendar entre o vento e as margaridas lá fora. Sim, sim eram difíceis mesmo.” Quatro passos. “Não, não há sentido nisso. Ou será que…” Há três passos e ela pára.

“Ô amigo! Tu não teriax um ixqueiro, teriax?!” Fala ela num sotaque meio português, meio holandês, para o ansioso careca que está à sua frente, que junto de seu longo nariz até agora chamamos por Pedro.

Desconcertado ele a olha dos pés à cabeça, os lábios tremem. Era ela, mas nele, Hannah não via Pedro. Ele olha para a placa que diz PROÍBIDO FUMAR. Ela acompanha seus olhos.

“Mas é claro, desculpe! Não queria incomodar-te.” diz ela sorrindo na esportiva e vira as costas retirando-se. Ele balbucia “H-Ha-Hannah?!” e nada mais lhe sai. “Como você sabe meu nome?!” Surpreendida, vira. Pedro retoma o pulso “Acho que sou a razão de estarmos aqui e…” “Porca Miséria! Meu amigo Pedro! Dá cá um abraço!” Ele levanta-se enquanto ela avança-lhe com os braços estendidos. Ela conclui os três passos restantes, ele recebe o abraço buscando evitar os cabelos dela como se sua pureza, sua perfeição original, fosse corrompida pela simples menção de caos à sua frente.

Após algumas formalidades, Pedro tenta ser o mais polido possível ao lembrá-la, “Hannah”, “Oi”, “O SEU CABELO ESTÁ COMPLETAMENTE ASSANHADO”. “Ah sim! Foi o vento ourax!” diz isso e sorri.

O vento.

Agora um pequeno amontoado de sentidos rolava mente abaixo desenrolado-se numa grande trama. “O vento, o vento! Sim, ela escolheu o lugar. Sim, ela escolheu a hora. Aqui haviam margaridas, e o vento as agitam à cada 4 minutos e 47 segundos, espalhando pelo bar seu aroma 38 segundos depois e dispersando-se em 12. O que quer dizer que o bar fica completamente sem o cheiro à cada 4 minutos e 9 segundos. Ela chegou junto de uma lufada de vento e entre o diálogo e o abraço gastamos 38 segundos e entre o abraço e o recuo natural de um passo, levamos mais doze segundos. Assim, Quando ela me abraços o cheiro das margaridas me atingiu e quando enfim, afastamo-nos, o cheiro se foi – Como se não fosse o vento ou o lugar, mas sua própria pele. Miserável! Aposto como o cabelo reserva sim alguma lógica! Definitivamente, há um padrão ali e eu vou encontrá-lo”.

“E aírix, apreciando o lugar?” disse a moça. Ele, porém, entendeu “Gostou da minha jogada?”. Ele quase podia ver naqueles grandes olhos castanhos um quê de desafio.

O telefone dela toca. Um trecho 5ª sinfonia de Beethoven, quatro notas. Ela deixa repetir-se 5 vezes, nota Pedro. Ele profere algumas palavras num dialeto estranho, com um tom nervoso crescente. Desliga.

“Deus meus, Pedro! Tenho de ir urgentemente! Ligo-te depois! Desculpa!” “Mas o que houve?” “Não dá tempo de…Táxi! Táxi!” Ela entra num carro de placa EVE 5445. Eram cinco da tarde!

Só restou a Pedro gritar: “Adorei as Margaridas!” e ouvir “Que margaridas?”

Seus olhos quase saltaram das orbitas ao ouvir a respostar. “Então ela quer jogar…pois bem, eu prepararei o próximo encontro…”

Que telefonema terá sido este? Será Hannah Eve normal ou obsessiva? Que espécie de encontro Pedro estará tramando?

(respostas às quintas, sempre às quintas…)

Quem estava comigo aqui: arials (system of a down)





Obsessão – Parte I (Estudo de Novela de Folhetim)

13 06 2008

Pedro era obcecado.

Seus olhos, ouvidos, pele e narinas interceptavam cada tola repetição eventual de uma vez mais de uma coisa feita por pessoa ou acontecida ao acaso mesmo.

Repetiu-se. Havia então de ser considerado enquanto padrão.

UM gesto, um piscar. Olhos e ouvidos atentos. Os primeiros giram incessantemente à volta, à procura de DOIS gestos, DUAS piscadelas. E voltam e reviram-se como que rolando os dados ao cérebro, num jogo de conexões.

UM latido, a porta que range. A cabeça agita quando é das orelhas que lhe vêm as verdades. Estica-se porém, quando ainda à busca, e ele achará DOIS rangidos, mais um ladrar. Por fim, o pescoço é forçado pela incredulidade satisfeita, doentia, orgasmática do Pedro satisfeito. Ele afasta diametralmente o rosto da evidência dizendo “NÃO!” Que poderia estar acompanhado do perplexo “como é possível?!” ou do canastrão “macacos me mordam!”

NÃO SE DEVE CRER NISTO!

Ele, com isso, diz “sim”! Diz “sim” e põe suas narinas e mãos à serviço do defloramento daquilo que seria a verdade por detrás das pequenas coisas que para ele, cheiravam aos rastros deixados pela substância divina mais pura quando aqui esteve a ordenar o mundo.

Mas no quesito humano destes rastros sacro-ordenatórios, Pedro, não ficaria contente com a simples descoberta. Pedro, era ob-ce-ca-do. Pois, se deus lhe deixou perceber o mundo em suas minúcias mais secretas, era que mais que saber como operavam-se as coisas da terra em sua perfeição, ele haveria de sê-las – em toda a extensão humana da perfeição.

E a perfeição original, estava nos padrões – Nas repetições perfeitas.

Ora, se lhe encontrávamos enamorado da procura, não há obscenidades que descrevam sua absorção e mimese. Acene para o sinal de trânsito como o jovem que segue à frente de Pedro, e como ele veja satisfeito o sinaldos pedestres ficar verde. Siga-o à próxima esquina, pois Pedro já o segue. Satisfeito com a sorte ele o faz de novo, e mais uma vez a sorte lhe sorri.

Bastou.

Retoma seus passos no caminho de origem. O garoto se fora, mas ficara em sua perfeição original. Em um terceiro sinal, Pedro trava um duelo, desta vez solitário, contra o acaso. Sem o jovem virtuoso para tomar a dianteira, ele acena e a faixa de pedestres reflete o verde sinal de sua vitória.

Sua obsessão pode prosseguir. De fato, acaso, destino ou ambos podem ser irônicos.

Prosseguiria ao encontro da mulher que lhe foi destinada. Hannah Eve, uma estrangeira que conheceu na internet. Seus pais eram matemáticos e lhe batizaram com um nome DUPLO palíndromo, cada nome se lia do mesmo jeito de frente para trás e de trás para frente. Ela possuía um irmão gêmeo “Renner Eve” e, Seu telefone era 8642-2468.

Algo estava para lhe acontecer.

(mas não até quinta que vem)

Quem estava comigo aqui: O Fabuloso destino de Amelie Poulain (Filme e trilha sonora)





Éimpossível, a solidão.

3 06 2008

Esta noite não fico recluso, pois mesmo os homens solitários, certas noites se sentem sozinhos. E consideram essencial a tolice de fazer-se entender por outro, um outro qualquer mesmo. Coisa que em toda vã, talvez os levem a crer que não se encontram reclusos à crua e humana solidão.

Quando a lua surge, caminho na sua trilha de luz e penumbra rumo ao encontro de qualquer um que me atenda o telefone. E antes que o destino se faça, consterno-me no rápido e banal encontro de passagem com um conhecido distante. Nome. Nem se quer me lembra o nome e eu que lhe descreveria toda a vida, mas os olhos que me cruzam, os pés que param seguidos de cumprimentos, consternam-me.

Certamente existo.

Mas eu precisava mais que de um pretexto, de algo mais para haver entendimento. E isto, isto é impossível. E somente com isto, posso voltar ao meu silêncio – sem trilha de lua e penumbra.

Ligo para alguém e o pulsar quase hipnótico do celular me arremete à dúvida da necessidade de olhos outros em confronto aos meus de origem solitária. A contradição não só reforça como é fundamental. É no contra-espelho da diferença onde se nasce e se renasce, porém se “é” e se morre sozinho. Nesta noite de luz-penumbra, ora em trilha, ora encruzilhada, a solidão é impossível, a solidão é necessária.

O telefone chama, como eu chamo a qualquer um. E falaria, e escreveria aos mil contatos destas ligações, sem que me entendessem. Afinal, as palavras estão sempre atrasadas à evolução do corpo que as produz. As palavras são um rastro à penumbra dos sentidos como a lua que, mesmo com os postes todos acessos, não cessa a escuridão da trilha.

Mantenho o pulso periódico do celular ao ouvido, mas torço que, quem quer que seja, não me atenda. A solidão é impossível bem como o entendimento, mas num ascendente silêncio, o importante é continuar caminhando.